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Por que 80% das empresas fracassam ao construir culturas de bem-estar

Especialista em felicidade corporativa alerta para o custo global de US$ 8,8 trilhões do baixo engajamento e aponta caminhos para transformação estrutural




O debate sobre a redução da jornada 6x1 expõe uma questão mais profunda no mercado de trabalho brasileiro: a incapacidade das organizações de traduzir consciência em mudança real. 


Enquanto 80% das empresas reconhecem a importância de uma cultura de bem-estar,

apenas 19% efetivamente constroem esse ambiente – segundo pesquisa do professor Jan-

Emmanuel De Neve, de Oxford.


O resultado desse descompasso aparece nos números:

  • Apenas 21% dos trabalhadores globalmente se sentem engajados

  • O prejuízo à economia mundial é estimado em US$ 8,8 trilhões – Gallup.


"Vivemos uma pseudoprodutividade: estamos muito ocupados, mas nem sempre trabalhando muito bem", analisa Renata Rivetti, CEO da Reconnect Happiness at Work e especialista em ciência da felicidade.


Para a executiva, o problema não está na falta de diagnóstico – as empresas já sentem na

pele o custo do turnover elevado, das licenças médicas e do absenteísmo. O desafio é atuar

na causa raiz.


"Não se trata de oferecer programas pontuais de bem-estar, mas de construir culturas genuínas que transformem estruturalmente o ambiente de trabalho", diz.


Duas possíveis soluções que exigem atenção imediata: IA e flexibilidade


A primeira é a aceleração tecnológica impulsionada pela inteligência artificial generativa.

Segundo a M c K i n s e y , até 2030 apenas um terço das atividades será executado

exclusivamente por pessoas – atualmente, 47% das atividades são realizadas por pessoas.


"A tecnologia pode reduzir o operacional e o repetitivo, permitindo que possamos focar no criativo e nas habilidades mais humanas", pontua Rivetti. 


O Fórum Econômico Mundial corrobora: 44% das habilidades dos trabalhadores sofrerão

mudanças até 2030, sendo que as cinco competências mais demandadas já são humanas –

pensamento analítico, influência social, adaptabilidade, resiliência e pensamento criativo.


A segunda transformação diz respeito à flexibilidade – não apenas de local ou horário, mas

de modelos de trabalho.


Tendências como a semana de quatro dias e escalas revisadas em setores tradicionalmente

rígidos (hotelaria, turismo, comércio) ganham força, especialmente com a discussão

recente sobre o fim da jornada 6x1.


Os quatro desafios do profissional do futuro

Rivetti identifica quatro obstáculos centrais que os profissionais enfrentarão nos próximos

anos:


1. Sobrecarga cognitiva:

O neurocientista Ian McGilchrist estima que, até 2050, o volume de conhecimento que

levava 100 anos para ser assimilado será processado em apenas 5 anos.


2. Lifelong learning:

A necessidade de aprendizado contínuo, com tendências como o microlearning ganhando

espaço nas organizações.


3. Busca por sentido:

58% dos jovens sentem que não têm propósito na vida, segundo a Harvard Graduate School of Education.


4. Epidemia da Solidão: 19% dos jovens se sentem sozinhos no mundo, conforme o World Happiness Report.


"A palavra-chave para superar tudo isso é intencionalidade. Não adianta esperar o mundo perfeito. É preciso intenção, estudo, descanso e cultivo das relações sociais", orienta a especialista.


Como as empresas devem agir agora?

As organizações não podem mais adotar uma postura reativa. Rivetti recomenda que

testem modelos mais flexíveis e híbridos, mas alerta:


"Precisam desenhar muito mais do que programas de bem-estar, e sim uma cultura que traga segurança psicológica, pertencimento, inclusão, espaço para escuta ativa e colaboração". Dois desafios são prioritários:


1. Microlearning e capacitação técnica:

Criar uma cultura genuína de aprendizado contínuo, com formatos ágeis e aplicáveis.


2. Redução da complexidade operacional:

Revisar processos burocráticos, excesso de reuniões, falhas de comunicação e estruturas

que drenam energia dos colaboradores.


"As empresas prosperarão ao integrar a tecnologia para garantir a sustentabilidade humana, tendo como diferencial o pensamento crítico, analítico e criativo. Precisamos trazer o diferencial do ser humano", conclui Renata Rivetti.

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