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Licença-paternidade é caminho para reduzir desigualdade salarial entre homens e mulheres, dizem especialistas

  • Câmara aprovou projeto que amplia de cinco para 20 dias afastamento de pais, mas de forma gradual

  • Aprovação atende a determinação do Supremo, que em 2023 mandou legislativo regulamentar medida




SÃO PAULO

A ampliação da licença-paternidade é o principal caminho para reduzir a desigualdade salarial entre homens e mulheres, segundo especialistas ouvidos pela Folha. Porém, o projeto aprovado pela Câmara dos Deputados, que aumenta para até 20 dias o tempo em que pais ficarão com os filhos após o nascimento, é apenas um começo.

O ideal, dizem, seria a aprovação de uma licença parental, em que pais e mães tenham direito ao mesmo período de afastamento das suas atividades profissionais após nascimento ou adoção.


"Essa licença-paternidade ampliada é condição necessária, mas não suficiente

para a transformação social que precisamos", diz Rodolfo Canônico, cofundador da Coalização Licença Paternidade e diretor-executivo da ONG (Organização Não Governamental) Family Talks.

Estudos apontam que a maternidade é o grande diferencial entre homens e mulheres quando se tratam de desigualdades no mercado de trabalho. Pela proposta aprovada pela Câmara, a licença-paternidade subirá de forma gradual a partir de 2027 , passando de cinco para dez dias, até chegar em 20 dias em 2029.


Paula Montagner, subsecretária de estatísticas e estudos do Trabalho do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), explica que licença-paternidade ampliada e adoção de licença parental são critérios considerados pelo ministério como justificativa para empresas que informam intenção de reduzir a diferença salarial entre empregados e empregadas.


Conforme a Folha antecipou, mulheres ganham 21% menos do que os homens

nas 54 mil empresas com cem funcionários ou mais no Brasil, segundo o 4º

relatório sobre remuneração do governo Lula, com base na Lei da Igualdade

O percentual é levemente maior do que a média da América Latina, que está em

20%. Quando há diferença salarial, Paula diz que pede às empresas informações

adicionais para entender a disposição e as ações para mudar o quadro.

"Uma empresa com diferença [salarial] que tem ações para apoiar a parentalidade,

concede licença-paternidade estendida, mostra que está buscando se

modernizar."


Rosana Silva, do Ministério das Mulheres, coordena ações para diminuir a

desigualdade salarial entre homens e mulheres na empresa e diz que há

companhias que já têm o afastamento de até 40 dias por nascimento ou

adoção. Para ela, se boas práticas são possíveis em uma empresa, podem ser

implantadas em outras.


A advogada Bárbara Ferrari, especialista em direito trabalhista e sócia do

Ferrari Rodrigues Advogados, diz que, do ponto de vista do trabalho, a licença

maior diminui o número de faltas de homens no início da vida de um filho,

entre outros benefícios.


"Vejo como uma forma de possibilitar um convívio maior entre pais e filhos nos

primeiros dias de vida. Em muito casos, há solicitação dos trabalhadores para

comparecer em consultas de rotinas do bebê", afirma, o que aumenta o

absenteísmo.


Para ela, a ampliação da licença-paternidade é uma medida que tem como

objetivo dar efetividade para a igualdade salarial e de gênero proposta pela lei

14.611/2023, que trata da igualdade salarial, mas precisa de mais iniciativas

para se tornar realmente viável.


"Além da parte legislativa, é fundamental que existam políticas públicas e

empresariais que garantam suporte adequado durante os períodos de

afastamento", diz Danilo Schettini, especialista em direito do trabalho e sócio da Advocacia

Schettini, lembra que a discussão e a votação do projeto ganhou impulso direto

a partir de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de 2023.

Na ocasião, os ministros reconheceram que o Congresso está em falta há mais

de 40 anos por não regulamentar a licença-paternidade no Brasil. A corte deu

prazo de 18 meses para que o legislativo aprovar lei ou o próprio STF fixaria as

regras.

"Com o prazo expirado em meados de 2025, o Congresso agiu para cumprir a

determinação e preencher esse vácuo legal", afirma Schettini.

Para ele, a aprovação de medida interfere diretamente nas diferenças de. gênero, melhora o vínculo entre pais e filhos, fortalece as famílias e regulamenta a legislação que estava pendente.

"A licença de apenas cinco dias reforça estereótipos de que o cuidado com os

filhos é responsabilidade exclusiva das mães. Um período maior de

afastamento paterno distribui melhor as responsabilidades e combate a

discriminação de gênero no mercado de trabalho."


REFLEXOS ECONÔMICOS

Rodolfo Canônico afirma que os benefícios para pais, mães, crianças e famílias

vão além dos econômicos, mas, no longo prazo, se refletem na economia.

Também seria uma disposição das empresas de contribuir com a mudança

social e diminuir a carga de cuidado das mulheres, além de não representar um

custo financeiro tão alto.

"Trinta dias de licença é um afastamento que corresponde a um período de

férias. Nenhuma empresa entra em colapso por conta de férias. Basta se

programar. É algo comunicado com muita antecedência", afirma ele, sobre a defesa feita pela Coalização Licença Paternidade de um benefício maior.

A licença-paternidade maior poderá, ainda, beneficiar mulheres em dupla

maternidade. Isso porque decisão do STF garantiu que, em casais com duas

mulheres, uma delas tem direito à licença-maternidade e a outra deve cumprir

apenas o afastamento previsto para pais. Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness at Work, empresa de bem-

estar e liderança humanizada, diz que a ampliação da licença para pais é muito

importante para o mundo do trabalho por mostrar que o papel do cuidado não

é só da mulher e por tornar mais justa a competição entre empregados e

empregadas.

"Traz uma mudança importante, de a gente transformar o cuidado de forma

mais igualitária na sociedade, e também de tirar a desvantagem da mulher, que

muitas vezes não é reconhecida no mercado de trabalho, não é contratada e

não é promovida por essa possibilidade da licença-maternidade."

COMO É A LICENÇA-PATERNIDADE NO BRASIL?

Segundo a advogada Verônica Irazabal, do Mauro Menezes & Advogados, a

licença-paternidade tem respaldo na Constituição Federal, mas faltava

regulamentação.

Ela afirma que o artigo 10 do ADCT (Ato das Disposições Constitucionais

Transitórias) o afastamento do trabalho para pais por até cinco dias corridos,

sem prejuízo da remuneração, e a lei 11.770, que criou o Programa Empresa

Cidadã em 2008, acrescentou a possibilidade de que empresas ampliem o prazo

por mais 15 dias em troca de benefícios fiscais, chegando a 20 dias.

Servidores públicos têm normas específicas e há decisões do STF ampliando o

direito a licença para pais por motivo de nascimento ou adoção, especialmente

para casais homoafetivos.


Em 30 de outubro, o STF uniformizou regras de licenças-maternidade e

paternidade e adoção para servidores públicos civis e militares do estado de

Santa Catarina. A decisão assegura afastamento em igual período e deve balizar

o julgamento de outras ações no Supremo sobre o tema, envolvendo diferença

de tratamento de funcionários públicos em outros estados.

Verônica acredita que não haverá questionamentos contra a lei na Justiça, já

que o Supremo determinou a regulamentação, e diz que o Brasil está

concretizando compromissos internacionais como a Cedaw (Convenção sobre

a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e a Convenção sobre os Direitos da Criança).


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