Após consumir conteúdo em redes sociais, os jovens se sentem infelizes
- Renata Rivetti

- 10 de abr.
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Embora 89% dos brasileiros se declarem felizes, a realidade por trás dos números revela um cenário mais complexo e, muitas vezes, contraditório.
Valor Econômico em 10 de Abril por Natália Flach Embora 89% dos brasileiros se declarem felizes, a realidade por trás dos números revela um cenário mais complexo e, muitas vezes, contraditório. Para uma parcela significativa da população, a felicidade expressa não passa de fachada. Em média, 51% dos usuários de internet afirmam se sentir tristes ou infelizes após consumir conteúdos nas redes sociais, e o impacto é ainda maior entre jovens e pessoas de baixa renda.
Os dados fazem parte do estudo “O Mapa da Felicidade Real no Brasil”, conduzido pela consultoria Reconnect Happiness at Work em parceria com o Instituto Ideia, e obtido com exclusividade pelo Valor. O levantamento ouviu 1,5 mil pessoas entre fevereiro e março deste ano e buscou compreender a felicidade a partir das particularidades brasileiras. Fatores como renda, liberdade individual, apoio social e saúde mental se manifestam de forma distinta entre diferentes grupos. E é justamente no ambiente digital que essas disparidades se tornam mais evidentes.
Segundo o estudo, 56% dos brasileiros admitem comparar suas vidas com as de outras pessoas em plataformas digitais. Entre jovens de 16 e 24 anos, o índice salta para 77%, e essa comparação frequente tem efeitos diretos no bem-estar: 71% relatam sentir tristeza ao consumir conteúdos nas redes sociais — percentual bem acima da média geral e quase o dobro do registrado entre idosos. Outra diferença é que, enquanto jovens buscam validação e reconhecimento nas redes, frequentemente se medindo por padrões idealizados, pessoas acima de 60 anos utilizam as plataformas para manter contato com familiares, o que tende a fortalecer vínculos afetivos e reduzir o isolamento.
Os brasileiros passam, em média, o equivalente a 114 dias conectados em redes sociais por ano, de acordo com dados da Data Reportal, plataforma que agrega e publica estatísticas. Isso representa quase 53 horas por semana, enquanto no restante do mundo a média semanal é de 33 horas.
A pesquisa “O Mapa da Felicidade Real no Brasil” também aponta que os impactos negativos são mais acentuados entre grupos minorizados. Quanto menor a renda ou o nível de instrução, maior a frequência de comparação e, consequentemente, maior o risco de insatisfação. Também há diferenças entre gêneros. A sensação de dependência das telas entre as mulheres atinge 57%, ante 42% entre homens.
O levantamento também chama atenção para a fragilidade da rede de apoio social entre os jovens: 21% afirmam não ter ninguém com quem contar em momentos difíceis, número significativamente maior do que os 6% registrados entre pessoas com mais de 60 anos. Em alguns casos, esse vazio tem sido ocupado por interações digitais, inclusive com ferramentas de inteligência artificial.
Já no ambiente de trabalho, a hiperconectividade contribui para um fenômeno descrito como “pseudoprodutividade”. Interrupções constantes — em média a cada dois minutos, segundo estudos da Microsoft —, excesso de reuniões e notificações contínuas reduzem a eficiência e aumentam o desgaste mental.
Para a pesquisadora e fundadora da Reconnect Happiness at Work, Renata Rivetti, o ambiente digital não é a origem dessas desigualdades, mas atua como catalisador: “As redes funcionam como um espelho da sociedade e intensificam a comparação constante.”
A saída, segundo ela, não é abandonar o celular, mas rever a relação com as redes sociais e demais aplicativos. Os países nórdicos, que frequentemente estão no topo dos rankings de felicidade — como o World Hapiness Report —, adotam práticas que incentivam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, além de maior convivência social fora do ambiente digital. Jornadas de trabalho mais curtas e políticas públicas voltadas ao uso consciente da tecnologia, especialmente entre jovens, são apontadas por Rivetti como possíveis referências.
Esse debate ainda é incipiente no Brasil, que aparece na 32ª posição do ranking global, mas começa a ganhar espaço, especialmente com o ECA Digital. “Escolas, empresas e o setor público surgem como atores fundamentais para ampliar a discussão sobre saúde mental, produtividade e qualidade de vida em um país cada vez mais conectado”, diz a pesquisadora.



