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A tecnologia está mesmo nos tornando mais infelizes?

23 de out
4 min de leitura

Todo mundo quer ser feliz, mas encontramos um mundo adoecido. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas sofrem de transtornos mentais. A felicidade virou uma busca incessante e produto de uma sociedade performática e superficial. Fórmulas mágicas são apresentadas em formato de reels e nos trazem a ideia de que “basta querer”. O resultado tem sido mais comparação, frustração, culpa e solidão.


Mas o que fazer para sairmos desse cenário e construirmos caminhos mais saudáveis e mais felizes? Qual nosso papel e responsabilidade nesta construção? Para entender isso e outros dilemas da vida contemporânea, a ciência da felicidade virou minha pauta de estudo e pesquisa nas últimas décadas, entendendo de forma quantitativa e qualitativa o que de fato nos faz viver bem.


Na pesquisa que conduzi com o Instituto Ideia, 21% dos jovens de 16 a 24 anos disseram não ter ninguém com quem contar na vida, nem família, nem colegas de trabalho, nem amigos. Entre eles, 78% se comparam ao usar as redes sociais e 76% se sentem tristes ao usá-las. E seguem usando.


Outro dado relevante e preocupante, porém, é que 36% dos entrevistados, e 48% dos jovens, recorrem à inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para desabafar. E 32% dizem se sentir mais compreendidos pela IA do que por pessoas próximas. A máquina responde na hora, a qualquer hora, sem julgamento aparente. A pergunta que me faço não é se isso é bom ou ruim, mas o que isso revela sobre a qualidade das nossas relações.


A ciência da felicidade é consistente em um ponto: o maior preditor de uma vida boa são relacionamentos profundos e significativos. Se a tecnologia está corroendo justamente isso, precisamos falar sobre o nosso papel. Não para culpar indivíduos, mas para questionar um modelo de sociedade que cobra urgência, entregas infinitas e felicidade performada.


E nós estamos simplesmente consumindo e construindo essa sociedade e mercado, banalizando os efeitos e impactos negativos desse cenário. Talvez esteja na hora de revermos o tema e o endereçarmos com a importância devida.


Curadoria de Mercado: 5 coisas no radar


1. ECA Digital

A Lei proíbe a publicidade a crianças e adolescentes e veta o uso de análise emocional para esse fim. Entrou na lista porque é a primeira vez que o Brasil reconhece em lei que o desenho das plataformas afeta o bem-estar. Vale observar como as marcas vão reagir: tratando como mais uma obrigação de compliance ou como chance de repensar a relação com o público jovem.

2. The Boring Phone, da Heineken com a Bodega

Uma cervejaria lançou um celular "chato", sem redes sociais, em edição limitada. Gosto do case porque mostra que a desconexão virou desejo de consumo. E porque expõe uma contradição que nós, do mercado, precisamos encarar: vender o offline como produto só faz sentido se a marca sustentar esse discurso para além da campanha.

3. Esther Perel e a "intimidade artificial"

A terapeuta belga usa essa expressão para falar não só da IA, mas do que já vivíamos nas redes: muitas conexões e pouca presença. Ela nomeou o que meus dados mostram, estamos conectados digitalmente, mas afastados emocionalmente.

4. A geração ansiosa, de Jonathan Haidt 

O livro ajuda a entender de onde vêm o que a minha pesquisa traz sobre os 21% de jovens sem ninguém com quem contar. O que mais me interessa nele é a saída proposta: não depende de um pai que proíbe o celular sozinho, mas de acordos coletivos entre famílias e escolas. Muito do que vi em minha viagem à Finlândia e Dinamarca, países que estão em primeiro no World Happiness Report e que apresentam uma relação mais consciente e saudável com o mundo digital.

5. Ela, de Spike Jonze

Vale revê-lo agora. Em 2013, um homem apaixonado por um sistema operacional parecia ficção científica. Em minha pesquisa, 32% dos brasileiros dizem se sentir mais compreendidos pela IA do que por pessoas próximas. Repare que o filme não é sobre a máquina: é sobre alguém que não consegue estar presente nas próprias relações.


Curadoria de Mercado: Quem amplia meu olhar

O renomado cientista Marcelo Gleiser, um ser humano incrível que tive a honra de conhecer e participar de seu retiro “A humanidade em busca de si”, na sua casa na Toscana, Itália.


Seu manifesto O despertar do universo consciente apresenta a ideia central de que somos uma raridade cósmica e que ao percorrer a história da vida na Terra e a busca por vida em outros mundos, Gleiser mostra que olhamos para o nosso lugar no cosmos a partir de uma lente equivocada. Ele propõe uma visão biocêntrica, que coloca a vida no centro e reconhece como é raro um planeta como o nosso num universo que, em geral, não acolhe a vida. O manifesto termina com um plano de ação para garantir nossa sobrevivência num planeta de recursos finitos, e deixa claro que o resultado depende das escolhas de cada um de nós.


É preciso que assumamos o nosso compromisso e protagonismo em futuros possíveis.


A “vida analógica” da geração Z: vale o hype?

Minha pesquisa mostra os dados preocupantes do aumento do uso das redes sociais e também da inteligência artificial para reduzir a solidão. Os jovens têm sido os mais impactos, e por isso, tem recorrido a trocar o feed por hobbies offline, como crochê, discos, câmeras analógicas e cadernos. Eles também pedem que as marcas criem experiências fora do digital.


Acho que a tendência é real, mas corre o risco de virar só mais uma estética para postar e no final mais uma ação performática da nossa sociedade, o que resultaria novamente em cansaço, desconexão e ilusão. No final, será que é mesmo sobre bem-estar e saúde mental? Se for pela performance, como tenho visto em muitos casos, não vale o hype.


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