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Forbes - “O mundo mudou”: principais tendências do futuro do trabalho direto do SXSW

De avanços da IA à chegada da Gen Z, Renata Rivetti, fundadora da Reconnect - Happiness at Work, comenta as discussões que foram destaque no maior festival de inovação do mundo





Discussões sobre o futuro do trabalho têm pautado o maior festival de inovação do mundo, o SXSW (South by Southwest). Temas como os avanços da inteligência artificial, a chegada da geração Z ao mercado de trabalho e a síndrome do burnout fizeram parte de diferentes painéis em Austin, no Texas, conduzidos por empresários, executivos e inovadores. “O modelo que a gente vem usando há 100 anos, desde a revolução industrial, certamente não vai funcionar mais”, diz Renata Rivetti, fundadora da Reconnect – Happiness at Work, sobre o futuro do trabalho.


Os novos modelos estão sendo pensados em torno da flexibilidade, a palavra da vez, apoiada pelo uso da inteligência artificial e por regimes de trabalho híbridos e assíncronos. “O mercado de trabalho precisa de pessoas que em vez de fugir da inteligência artificial, com medo que ela roube seus empregos, se dediquem a aprender e começar a experimentar.”


O objetivo é trabalhar de forma mais inteligente, deixando de lado a velha ideia que relaciona produtividade com horas trabalhadas e reuniões o dia todo. “Tudo que a gente vem discutindo é um novo formato de trabalho que certamente vai nos levar a semanas mais curtas”, diz a fundadora da Reconnect, consultoria que acompanha o piloto da semana de quatro dias no Brasil.


Para além de discutir tendências, a futurista Amy Webb, destaque do SXSW, defendeu que o mais importante é trazer as conclusões para a realidade. “A gente precisa trazer ferramentas práticas e não ficar só falando sobre a construção de cultura de bem-estar”, afirma Rivetti.


Direto de Austin, Renata Rivetti comenta as principais tendências profissionais discutidas no festival. Confira:


Forbes: Quais as principais tendências de futuro do trabalho que estão sendo discutidas no SXSW?


Renata Rivetti: Uma delas e talvez a principal é que a gente precisa construir uma nova forma de trabalhar. Com a inteligência artificial, a gente vai evoluir a cada cinco anos como evoluía a cada 100. Então não dá mais para medir produtividade por horas trabalhadas ou olhar as mesmas métricas. A tecnologia nos deixa mais eficientes e a inteligência artificial vai trazer eficiência e produtividade. A gente também começa a entender de fato o que é o modelo híbrido. Quando estamos no escritório temos uma conexão que é super importante, mas na maior parte do tempo a gente deveria trabalhar de forma assíncrona. Um outro aspecto tem a ver com a Geração Z entrando no mercado de trabalho. Não é só uma geração que não quer trabalhar ou quer flexibilidade como as pessoas sempre falam, mas sim uma geração que começou a trabalhar durante a pandemia e tem uma nova forma de enxergar o trabalho com mais liberdade, sendo uma parte da vida e não o todo. Eles querem crescer, se desenvolver, mas precisam de ajuda. A Amy Webb fechou uma das palestras falando sobre o quanto a gente precisa ter estratégias alinhadas às previsões. Não adianta ficar falando de futuro e não trazer para a realidade. Não adianta fazer previsão e não trazer para o prático.


F: A semana de trabalho de 4 dias foi abordada em algum momento?


RR: Mais do que falar especificamente sobre a semana de quatro dias, a tendência é a gente de fato trabalhar menos, a palavra-chave do futuro do trabalho é flexibilidade. Isso envolve mensurar os resultados e não horas trabalhadas, ter reuniões curtas e objetivas, trabalhar de forma assíncrona, priorizar melhor as atividades e utilizar a inteligência artificial. Tudo que a gente vem discutindo é um novo formato de trabalho que certamente vai levar a gente para semanas mais curtas, tanto pela Geração Z que vem com esse questionamento de “por que eu vou ficar 8 horas na frente do meu chefe se já terminei o que eu tenho que fazer?” e cada vez mais as pessoas entrando numa gig economy e trabalhando com os próprios horários.


F: Segundo os especialistas de um painel sobre ambientes de trabalho tóxicos, 50% das pessoas experimentaram o burnout em algum momento da carreira. Como isso afeta os profissionais no Brasil?


RR: A pesquisa da Vidalink com 9 mil colaboradores traz que hoje 63% das pessoas se sentem ansiosas todos os dias e que 25% não fazem nada em relação à saúde mental. A gente vê o índice de burnout crescendo no Brasil, segundo a OMS somos o segundo país do mundo, só perdendo para o Japão. Precisamos fazer grandes mudanças porque o burnout custa para a economia global US$ 322 bilhões. Muito se falou no festival que a forma como está hoje é insustentável. Muitas vezes as pessoas simplesmente estão perdidas e o burnout vem também de baixa autoestima e de ambientes de assédio, porque elas não tiveram apoio muitas vezes da liderança. A gente precisa olhar para o que está acontecendo e fazer as mudanças necessárias na prevenção, e não só no tratamento posterior.


F: Qual o papel das lideranças em criar um ambiente de trabalho saudável?


RR: A gente ouviu bastante sobre isso esses dias. O papel do líder passa agora por uma reformulação. Ele deixa de ser apenas um técnico que olha resultados para ser alguém que cria um ambiente seguro psicologicamente e um espaço de escuta ativa. O líder tem que ser exemplo, tem que criar um espaço seguro, e, muito mais do que ser alguém que dá metas e resultados, é alguém que faz mentoria e ajuda o time a se desenvolver, esse papel é muito importante.


F: É possível manter a sanidade mental em uma cultura de correria, prazos apertados e poucos momentos de descanso?


RR: A gente precisa sair dessa cultura de correria porque isso tem nos levado muito mais ao adoecimento do que à produtividade e resultados. Dá para trabalhar melhor, não necessariamente mais. Na verdade, é o oposto. Eu consigo trabalhar melhor e reduzir minhas horas fazendo algumas mudanças: usando a inteligência artificial para fazer tarefas operacionais, reduzindo reuniões, trabalhando de forma assíncrona e tentando reduzir as distrações, as redes sociais, e colocando momentos de hiperfoco na agenda, por exemplo.


F: Por que as mulheres são as mais afetadas?


RR: A pesquisa da Vidalink com 9 mil colaboradores tem dados interessantes que mostram que as mulheres trabalham em média 7 horas e meia a mais do que os homens por causa da jornada dupla. E apenas 17% das mulheres afirmam que se sentem tranquilas na maior parte do tempo, quando 30% dos homens afirmam o mesmo. A gente vê claramente um gap em relação ao bem-estar e à saúde mental feminina porque a gente tem uma cultura de estarmos sempre disponíveis, então ficamos muito mais preocupadas, ansiosas, achando que temos que dar conta de tudo, tentando ser multitarefas, e no final a gente não consegue porque segundo a neurociência não somos multitarefas. Para ter uma vida de qualidade, ter saúde mental e bem-estar, eu preciso fazer mudanças e equilibrar melhor, aprender a dizer não e ter tempo de qualidade nas nossas entregas. Das 8 horas trabalhadas, a gente entrega resultados em 2 horas e 23 minutos, o resto tem a ver com a correria, reuniões improdutivas e muitas distrações. Nós, mulheres, temos que assumir que não vamos dar conta de tudo, e tudo bem.


F: Como a geração Z no mercado de trabalho tem pautado as discussões do SXSW?


RR: A Geração Z vai transformar o mercado de trabalho. Por mais que a gente ainda veja algumas lideranças achando que tudo que é falado por eles é “mi mi mi”, certamente essa liderança que não enxerga que o mundo está mudando vai perder talentos, inovação e resultados. A Geração Z fala muito sobre valores, flexibilidade e traz questionamentos corajosos. O que a gente precisa, ao invés de abandonar e criticar essa geração, é ajudá-los porque eles vieram para o mercado de trabalho em um momento muito difícil, de Covid, de transformações e impacto na saúde mental. Então o nosso papel é ouvir essa geração e ensiná-los a serem resilientes, a enfrentar desafios, crescer, aprender e se desenvolver. E eles podem nos ensinar a atuar de formas mais coerentes com o momento de mundo que a gente vive, de extrema tecnologia, evolução da inteligência artificial, mas ainda trabalhando como trabalhava no pós-revolução industrial.





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