Como liderar à distância gerando aos colaboradores segurança psicológica e felicidade no trabalho?

Artigo publicado na Happiness Gazette - edição de março de 2021


O mundo mudou. Mundo VUCA, mundo BANI, pandemia, expansão do home office, anywhere office. Nunca estivemos tão conectados pela tecnologia, porém nunca fomos tão solitários. O índice de solidão duplicou desde a década de 1980, e hoje, mais de 40% dos adultos nos EUA sentem-se sozinhos e há pesquisas que indicam que isso pode ser ainda maior.


Além disso, a pandemia piorou esse cenário. A pesquisa coordenada pela professora Adriane Ribeiro Rosa, Covid-19 Saúde mental: usando a tecnologia digital para avaliação das consequências da pandemia aponta que cerca de 80% da população sente-se mais ansiosa, 68% têm sintomas depressivos, 65% expressam sentimentos de raiva, 63% apresentam sintomas somáticos e cerca de 50% relatam alterações no sono.


Mesmo com esses dados, poucas pessoas procuram algum tipo de ajuda profissional. E quando falamos do cenário dentro das empresas, esses dados são ainda mais críticos. Segundo a consultoria Capita (2019), 79% relataram algum sintoma de estresse ou ansiedade no trabalho nos últimos 12 meses e 49% acreditam que o líder não saberia lidar com o tema. Ou seja, achamos normal nos sentirmos estressados, inseguros, ansiosos e não termos uma rede de apoio no trabalho que nos ajude a superar esses desafios.


Mas de quem é a responsabilidade pela segurança psicológica e felicidade da equipe? Do RH? Dos líderes? Da empresa? Da própria pessoa? A verdade é que é uma responsabilidade compartilhada. Certamente a própria pessoa precisa de autorresponsabilidade e autogestão para buscar um trabalho que a motive e desafie, relações mais positivas, um trabalho com significado. Porém, é claro, que há também o papel do RH em criar uma cultura mais positiva e de alguma forma ensinar os líderes a importância de seu papel no engajamento e felicidade da equipe. Com a pandemia, as empresas tiveram que aprender a liderar à distância. Porém, isso nunca foi ensinado isso aos líderes. Segundo a Gallup®, os líderes são responsáveis por 70% do engajamento do time. Em outra pesquisa da Gallup®, somente 30% confiam em seus líderes. Ou seja, confiança na liderança e segurança psicológica são fatores essenciais para alta produtividade e engajamento da equipe, porém, a realidade é que isso ainda não é tão real. Por mais que saibamos desses fatos, a verdade é que poucos líderes enxergam isso na prática.


Quando questionados, muitos líderes se sentem próximos da equipe. Há reuniões o dia todo nos aplicativos de vídeo, contatos pelo WhatsApp e e-mails quase ininterruptos. Uma pesquisa do Future Workplaces indicou que os líderes se comunicam muito mais através de e-mails e mensagens do que pessoalmente. E o fato é de que não precisamos de muitas pessoas no trabalho para nos sentirmos pertencendo e conectados, mas pelo menos um vínculo profundo, para que tenhamos um sentimento de segurança.


Pessoas precisam de pessoas. E não pessoas em quantidade, mas sim em qualidade. Todos nós queremos ser felizes, mas a realidade apresenta índices opostos. Ou seja, nossa busca está de alguma forma equivocada. Trocamos pessoas por telas de celular. Temos medo de nos expressarmos e sermos cancelados. Preenchemos nossos vazios com entretenimento, barulho e diversão. Mas chegamos ao final do dia nos sentindo vazios apesar de muitos likes.


Podemos ser felizes no trabalho. E para isso, certamente precisamos de relações de confiança e verdade. Alguém com quem possamos contar, caso precisemos. E o que faz a diferença são as ações simples. Felicidade talvez venha do básico, da volta ao contato mais humano, de nos sentirmos realmente conectados com o outro e não conectados com as telas. Os líderes precisam ouvir seu time. Perguntar como estão lidando com o covid, entender como estão seus emocionais, sua família, como tem sido o home schooling. Não adianta falar 24h com o time, sem ouvi-los de verdade.


Está na hora de nos lembrarmos que somos humanos. Que estamos sofrendo e podemos ter medos. Está tudo bem. Não dá mais para vestirmos máscaras no trabalho e agirmos com frieza e pouca humanidade. Liderar à distância não é fácil. E você como líder pode ter medo também. Mas fingir que está sempre tudo bem e olhar somente para metas e planilhas e não para as pessoas não é mais possível. Não há uma fórmula mágica de como liderar à distância e manter a equipe feliz e segura. Mas com certeza o caminho é olhar, conversar, ouvir, agir com empatia, se mostrar vulnerável e construir juntos o caminho melhor para todos. Ansiedade, medo, insegurança e tristeza nos dias de hoje não é mimimi. É sermos humanos.


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